segunda-feira, 13 de abril de 2015

A falácia do "golpismo"


Poderia haver algo mais democrático do que o povo,ele mesmo, dizendo o que quer e o que não quer?



Não há sentido algum, além dos óbvios esforços dos atuais detentores do poder para manterem-se lá, em chamar de golpismo a insatisfação da sociedade. Não é golpismo, não é golpe, quando o povo sai às ruas e diz o que quer dizer, diretamente, sem a intermediação de supostos representantes. Não é golpe quando as instituições democráticas cumprem o seu papel constitucional, como estão fazendo o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça, entre outros órgãos, e compartilham com a sociedade, a quem têm o dever de servir, as informações de que dispõem. Não é golpe se a imprensa livre não se omite, mantendo silêncio sobre irregularidades e “malfeitos” sistematicamente praticados na administração pública, e revelados por aquelas instituições, mas, como mais um dos pilares da democracia, oferece espaço tanto para a divulgação dos fatos quanto para a contestação e o contraditório.

Não é golpe quando, nesse cenário, a sociedade – e não apenas esse ser abstrato, mas cada um dos indivíduos que a compõe – toma ciência desses fatos, em menor ou maior grau de minúcias, e a partir daí elabora seu próprio juízo. Não é golpe quando essa sociedade, levada para além do limite de sua tolerância, decide gritar: basta! E resolve – considerando a saúde da democracia tão penosamente construída e o resgate da moralidade e da ética no trato da coisa pública – que não é mais opção razoável esperar outros quatro anos, depois de doze já transcorridos, assistindo ao mesmo padrão tão degradado de populismo irresponsável, que, por um lado, tem desperdiçado as chances de levar o Brasil ao patamar de grande nação que tem potencial para ser e, por outro, apodera-se de seus recursos, das formas mais sujas e da maneira mais ampla que consegue, para financiar com o dinheiro do povo um nefasto projeto de poder.

Caberiam aqui parênteses para e expor o pano de fundo desse cenário nauseabundo montado pelo governo petista, cujas faces mais visíveis são a corrupção institucionalizada, o aparelhamento da máquina estatal (mais de 100 mil cargos comissionados só na administração federal!) e a cooptação de apoios políticos, de “movimentos sociais”, de organizações paramilitares, de setores da imprensa, da igreja e do sistema judiciário, comprados com o dinheiro do povo, arrecadado tanto por meios legais quanto por vias criminosas. Esse pano de fundo tem um nome: Foro de São Paulo, em cujos bastidores vêm sendo tramadas as estratégias espúrias da “revolução” que está empenhando-se em impor uma hegemonia neocomunista, de inspiração bolivariana, em toda a América Latina, para nela fundar a “Pátria Grande”, conceito libertador criado por Simón Bolívar mas sorrateiramente usurpado por Fidel Castro e Hugo Chávez, que lhe conferiram uma nova roupagem de viés totalitário. O eixo bolivariano, idealizado pelo regime castrador de Cuba, encontrou eco em remanescentes saudosistas das superadas ideologias comunistas, cuja inviabilidade a História se encarregou de provar. Já não se oculta, há tempos, o alinhamento despudorado do governo petista brasileiro ao regime ditatorial dos Castro e, na mesma medida, ao sanguinário chavismo que se torna a cada dia mais podre nas mãos do venezuelano Maduro. E vêm remando no mesmo barco os governos de Equador, Bolívia e Argentina. Não é por altruísmo ou sensibilidade humanitária que o governo brasileiro abusa dos recursos da maior economia do continente para financiar obras nesses países, quase sempre através de cláusulas secretas. Seria preciso um livro, ou muitos, para tentar exaurir esse contexto. Entretanto, já é evidente que não é apenas uma gestão corrupta que tomou conta do poder. É um projeto muito maior, em que a corrupção é apenas mais um de seus instrumentos. Fecha parênteses.

Junho de 2013 ainda está fresco na memória. Milhões de pessoas foram às ruas, motivadas pelos 20 centavos, mas aproveitando a inspiração para gritar outros bastas. Gritos que estavam entalados em gargantas secas, sedentas de moralidade e eficiência de um governo que já não mais conseguia ocultar sua podridão por trás da suposta caridade aos mais pobres. O modelo petista de governo já estava esgotado. Ainda que tentassem desqualificar as manifestações como sendo birrinha da elite, todos sabem que eram pessoas comuns que foram às ruas. O discurso risível de que os ricos estão incomodados com a ascensão social dos pobres, que tem a consistência de uma gelatina morna mas ainda hoje é reproduzido pela militância servil, não bastou para calar os descontentes. Até porque estes não se sentiram atingidos, já que estão entre os ricos, a classe média e o proletariado (só para usar um termo tão ao gosto dos nostálgicos marxistas-leninistas). Indignação contra a imoralidade não tem classe social. Não tem cor, não tem sexo, religião ou região geográfica. Tem é a consciência, tanto no sentido daquela voz interior que insiste em incomodar quando algo não vai bem, quanto no conhecimento dos fatos que saltam aos olhos, multiplicando-se vergonhosamente, e alertando, ululantes, que o abismo se aproxima. Indignação tem a ânsia, individual e coletiva, de viver em uma nação decente, que funcione, que seja representada e gerida por pessoas de bem, e bem intencionadas. Não por falastrões que se constroem e sustentam em mentiras sobre mentiras, em falácias sobre falácias, em propaganda e engodo, enquanto acobertam as realidades putrefatas que deixam atrás de si, geradas como subproduto inevitável de seus funestos planos de poder. Projetos que não têm a nação como prioridade, antes a implementação de sua ideologia e a perpetuação de seu governo, a qualquer custo.

Os gritos de junho de 2013 não silenciaram. Foram abafados, com a eficaz infiltração de baderneiros que provocaram a reação truculenta das polícias, a dispersão dos manifestantes pacíficos e a desmobilização das pessoas, mas não silenciaram. Nas ruas, nas casas, nos bares, nos empregos e nas filas em busca deles, o assunto é recorrente: tá demais! A corrupção, a ineficiência e as mentiras deste governo ‘tão demais! Mesmo o processo eleitoral do ano passado não resolveu isso. Não é preciso entrar aqui no mérito da fragilidade e da vulnerabilidade do sistema utilizado. Basta constatar o perfil dos votos. 37% dos eleitores teriam votado, segundo as urnas, na reeleição da presidente Dilma. Os outros 63% dividiram-se entre o concorrente, votos brancos, votos nulos e abstenções. Dois terços, portanto, não escolheram Dilma Rousseff. E do terço restante, o perfil do eleitorado, quando cruzado com as muitas pesquisas de opinião realizadas antes do pleito, foi majoritariamente composto por pessoas de baixa escolaridade, com menos acesso à informação, e mais suscetíveis à propaganda terrorista do fim das bolsas no caso da derrota da ungida pelo Pai dos Pobres. Ninguém de mente equilibrada vai negar o benefício social dos programas de transferência de renda, que tiram pessoas de situação de extrema vulnerabilidade para oferecer-lhes um pouco de dignidade. Porém, da mesma forma, não deverá discordar do uso vergonhosamente eleitoreiro que o governo petista fez deles. Tanto que prefere deixá-los dependentes das bolsas enquanto possível, em vez de substituí-las por programas de formação, qualificação profissional e geração de emprego. E como se não bastasse a legitimidade frágil da vitória, mais da metade dos eleitores de Dilma em 2014 já não repetiriam o voto hoje, e as últimas pesquisas de popularidade da presidente indicam 7% de aprovação do governo, o mais baixo índice já registrado na história brasileira. Collor era aprovado por 15% da sociedade a seis meses de seu impedimento pelo Congresso. Que, a propósito, se deu por questão de gorjetas se comparado ao bilionário e continuado achaque aos cofres públicos promovido ao longo dos governos petistas.

Estamos gritando de novo. Alguns não, e cada um tem suas razões. Mas muitos estão. E mais uma vez não aceitamos as pechas de “elite” ou “golpista” ou qualquer outro termo malandro que tente desconstruir uma indignação legítima que se espalha por toda a sociedade. Se estamos gritando, é porque os nossos anseios, que não são de ontem, não estão sendo atendidos por quem deveria nos ouvir e representar. Ao contrário, estamos cada vez mais distantes, nós e esses nossos supostos representantes, separados por um fosso que se alarga sempre mais. Ficamos, o povo, aqui, só contemplando a classe política e, sim, essa elite sem-vergonha, se esbaldando do lado de lá. E com o nosso dinheiro. Com os nossos valores, os financeiros e os morais, sobre os quais tripudiam e se locupletam, numa assombrosa desfaçatez. Gritamos de novo justamente porque somos uma democracia, e não aceitamos ser transformados em uma cleptocracia, ou mesmo uma ditadura velada, nos padrões da coitada Venezuela. Nosso grito é pela democracia, e dela nos valemos para ir às ruas.

Afinal, o que é mais democrático? O povo manifestar-se diretamente, através dos meios de que dispõe, de maneira organizada, pacífica, ainda que às vezes criativamente provocadora, e outras surpreendentemente contemporânea, utilizando-se da velocidade dos meios digitais para disseminar ideias e provocar debates? Ou esse mesmo povo digitar alguns números, de quatro em quatro anos, em uma urna eletrônica cujo sistema é inexpugnável, blindado a auditorias mas vulnerável a fraudes? E, ainda que fosse seguro e confiável, um sistema eleitoral do qual são ungidos os representantes do povo que sabidamente não os representam? O que é mais democrático? Exigir mudanças, mesmo que drásticas e imediatas, em um sistema político e uma gestão pública falidos, ou legitimar a continuidade de uma administração comprovadamente ineficaz e corrupta, apenas para respeitar aquele sistema eleitoral? O que é mais democrático? O povo dizer basta! e exigir atitudes, e provocá-las, ou baixar a cabeça e continuar, submisso, sustentando uma elite, essa sim golpista, que do povo espolia suas riquezas, sua dignidade e seu orgulho, em nome de um projeto de poder?

Pela democracia é que eu vou às ruas. Pela assepsia de nossas instituições. Pela moralidade e pela ética, discurso tão empregado por esses nossos governantes quando eram oposição, lembra? Por um governo que possa nos orgulhar, e que sirva de modelo e referência aos nossos filhos. Por uma nação livre, limpa e próspera, em que eu não precise mais voltar às ruas.

É por isso que, agora, eu preciso ir pra rua. E se essa motivação for chamada de golpe, então, sim, sou golpista e sempre serei. Quisera não ser necessário, mas a tirania ainda conhecerá muitos de meus golpes.