quarta-feira, 6 de maio de 2015

PMDB encurrala PT por discurso de Lula


Jogo de aparências: trocar o tradicional vermelho
pelas cores da bandeira não tem ajudado Lula
a transmitir credibilidade
O ex-presidente Lula, notório por seus discursos acalorados, provocativos e nem sempre coerentes, outra vez se coloca no centro de uma polêmica que desgasta ainda mais a frágil relação do PT com seu principal aliado, o PMDB.

No programa eleitoral do PT veiculado na noite de 5 de maio, Lula, por um lado, defendeu o ajuste fiscal proposto pelo ministro Joaquim Levy para salvar as contas do governo e, por outro, criticou a regulamentação do trabalho terceirizado. No primeiro caso, não menciona os riscos aos direitos dos trabalhadores; no segundo, se apresenta como o defensor da causa trabalhista.

“Não podemos permitir que a história de luta dos trabalhadores ande para trás”, disse Lula na propaganda petista. “E é isso que vai acontecer se for aprovado o Projeto de Lei 4330, o projeto da terceirização que passou pela Câmara. Esse projeto faz o Brasil retornar ao que era no começo do século passado. Voltar a um tempo que o trabalhador era um cidadão de terceira classe. Sem direitos, sem garantias, sem dignidade. Não vamos permitir esse retrocesso”, afirmou o ex-presidente.

Como é sua marca, juntou uma série de frases de efeito para desqualificar o projeto da terceirização, alegando "perda de direitos", mas não menciona um sequer. Já é de conhecimento geral que o governo e a CUT são contra a regulamentação da terceirização – que passaria a garantir direitos a mais de 12 milhões de empregados terceirizados que atualmente estão a descoberto – porque haveria perda de receita, tanto para o Tesouro quanto para as centrais sindicais que representam os trabalhadores diretos, como a CUT. Pela mesma razão é que a Força Sindical, entre outras, que congregam trabalhadores terceirizados, apoiam a medida, porque passariam a ampliar sua influência e seus ganhos com a contribuição sindical. Esse, enfim, é o pano de fundo da discussão: dinheiro para quem se diz representar os trabalhadores. Mas isso é outra discussão.

O ponto aqui é mais essa incoerência de Luís Inácio, o mesmo que se diz indignado com a corrupção e promoveu em seus governos o maior escândalo de desvio de recursos públicos da história. O mesmo que disse, à época do mensalão, que tudo era "apenas caixa 2" de seu partido, e não desvio de dinheiro público, e agora, com o cerco fechando na operação Lava-Jato, jura que seu partido somente recebe doações legais. O mesmo Lula, desta vez, condena a terceirização mas apoia o ajuste fiscal, que tem como uma das medidas mais polêmicas justamente a diminuição de direitos trabalhistas. No ajuste fiscal da Dilma e do Levy, outra vez quem paga a conta é o trabalhador. Mas neste caso Lula não se importa.

Essa dubiedade é que motivou o PMDB, logo após o programa eleitoral da noite de terça, a mudar sua posição quanto à votação da Medida Provisória 665, que faz mudanças no seguro desemprego e no abono salarial, parte dos esforços para o ajuste fiscal. O PMDB já havia concordado não apenas em votar o texto como dar seu apoio à MP.

"Vamos seguir a orientação do ex-­presidente Lula: vamos combater a retirada dos direitos dos trabalhadores", ironizou o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (PMDB-RJ). "Diferente do que se apregoa, o projeto 4.330 das terceirizações não retira direitos dos trabalhadores. Já a Medida Provisória 665, não vou dizer que acaba com o direito do trabalhador, mas ela flexibiliza os ganhos dos trabalhadores", afirmou Picciani.

E continuou: “Não votaremos a MP 665, não mais. Até que o PT nos explique o que quer. Se não for assim, não conte conosco. Se há dúvidas e se o país não precisa desse remédio amargo, não vamos empurrar essa conta no trabalhador.”

O que move o PMDB, de fato, é o receio de pagar sozinho a conta do desgaste junto à opinião pública, enquanto o PT, posando de defensor dos trabalhadores, se faz de contrário a medidas impopulares que sabe que serão aprovadas de qualquer forma, priorizando as medidas que ajudem a salvar as contas do governo.

Para complicar, o líder do PDT (partido que integra a base), deputado André Figueiredo (CE), afirmou que todos os 19 parlamentares da legenda votarão contra a medida. “Tirar de quem tem pouco, preservando quem tem muito, é injusto”, completou Figueiredo.

Com a palavra, o PT, que, se quiser que o Congresso ajude a salvar o caixa da Dilma, terá que sair do armário e assumir o ônus junto com seus aliados. O Partido dos Trabalhadores, em pleno desmoronamento, deixa cada vez mais evidente que perdeu o poder que esnobava até há pouco, e fica sempre mais refém das investidas do glutão PMDB.

Panelaço

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o Palácio do Planalto avalia que foi um erro incluir o ex-presidente no programa do PT, já que era previsível que acontecessem "panelaços". A avaliação é que se fosse um panelaço já seria ruim, mas não tão ruim como foi com a presença de Lula, considerado por aliados como uma força política que não pode ficar exposta neste momento.

Se ter provocado outra vez a fúria da sociedade e suas panelas já era ruim, fazer de Lula o pivô de mais uma crise na base aliada por conta de seus discursos inconsistentes era tudo o que o PT e o governo não precisavam, e não queriam, nesse momento tenso que estão vivendo.









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