quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A mensagem cifrada de Michel Temer: "Serei o novo presidente."

"É preciso que alguém tenha a capacidade de reunificar a todos".
Só faltou dizer: "esse cara sou eu".
No reinício das atividades do Congresso, após o "recesso branco", inaugurando o segundo semestre com uma enxurrada de iniciativas para preparar o nocaute do governo de Dilma Roussef, como a criação das CPIs do BNDES e dos Fundos de Pensão sem integrantes de parlamentares do PT na mesa de trabalhos, surge, para falar em nome do governo, o vice-presidente Michel Temer.

Ele pode falar em público e de improviso, ao contrário da titular da presidência, porque, além de evidente fluência na comunicação, com frases completas e que fazem sentido, não corre o risco de ter suas falas abafadas por vaias.

Em um único parágrafo, Temer deu um depoimento à imprensa na tarde da última quarta, 05, logo após se reunir com Dilma e depois de ter conversado com parlamentares da base no Senado e na Câmara, em sua residência. As frases bem elaboradas, com palavras precisas, deram mais uma amostra de sua habilidade, não apenas como orador, mas como um articulador eficaz.

A fala, na íntegra, segue ao final, mas algumas palavras e frases, que destaco antes, revelam que, atrás de uma aparente missão de proteção ao governo de Dilma Roussef, Michel Temer desenha um cenário do qual ele próprio é o cenógrafo e onde pretende atuar como o protagonista.

Michel Temer, homem experiente e político habilidoso, não usa palavras aleatórias, ao contrário de sua 'chefa'. Cada termo é pinçado e alocado com precisão cirúrgica. Foi assim seu pronunciamento, que, demonstrando certa tensão e alguma ansiedade, incomuns em suas falas, deixou mensagens objetivas nas entrelinhas:


  • "Há uma crise política se ensaiando". Todos sabemos que a crise política já está instalada, e em pleno vigor. Se algo está "se ensaiando", só poderá ser o agravamento dela, com desdobramentos radicais e extremos. Então o que realmente está "se ensaiando" são os movimentos pelo impeachment no Congresso, que têm o correligionário peemedebista Eduardo Cunha como maior facilitador.
  • "Vocês sabem que ao longo do tempo nós tivemos sucesso na articulação política". O "nós" se refere a ele próprio, Temer. O vice-presidente valoriza-se e projeta-se como um político eficaz e bem sucedido articulador e pacificador, o que seria essencial em momentos de crise e, principalmente, de transição.
  • "Hoje, quando se inaugura o segundo semestre, agrava-se uma possível crise". O segundo semestre é tido pelo próprio PMDB como decisivo para a permanência ou não de Dilma na presidência. Lideranças do partido já deram como certa sua queda antes de outubro. O reinício das atividades do Congresso já deu, em poucos dias, bons sinais nesse sentido, que se somam à análise das contas de Dilma pelo TCU, com forte probabilidade de serem rejeitadas e abrirem mais um pretexto para um processo de impeachment no Congresso, e ao avanço desenfreado da operação Lava Jato, que deve confirmar nos próximos dias o acordo de colaboração premiada de Renato Duque, indicado pelo PT na Petrobras e que deverá escancarar a participação dos maiores líderes petistas na pilhagem da estatal.
  • "É preciso que alguém tenha a capacidade de reunificar a todos, de reunir a todos". Só faltou dizer: "esse cara sou eu".
  • "É preciso pensar no país. Acima dos partidos, acima do governo e acima de toda e qualquer instituição está o país". Notem bem: "acima do governo...". Ou seja, para "pensar no país" e querer que ele vá "bem", como disse logo depois, é preciso agir "acima do governo". Acima DESTE governo, porque ele já não representa a nação. Já não governa, não tem a capacidade de reerguer o país e nem mesmo conta com um mínimo de aprovação da sociedade. 

Em uma frase, o pronunciamento poderia ser traduzido assim: "Teremos a seguir momentos decisivos para o futuro do país, que exigirão uma transição, e eu sou a pessoa adequada para liderar esse processo." Ou mais enxuto ainda: "Serei seu próximo presidente."

Esta foi a fala completa:

"Na pauta dos valores políticos temos, muitas vezes, a ideia do partido político como valor, do governo como valor e do Brasil como um valor. Mas nessa pauta de valores, o mais importante é o valor Brasil, o valor País, e estamos pleiteando exata e precisamente que todos se dediquem a resolver os problemas do País.
Não vamos ignorar que a situação é razoavelmente grave. Não tenho dúvida que é grave. E é grave porque há uma crise política se ensaiando, há uma crise econômica que está precisando ser ajustada, mas para tanto é preciso contar com o Congresso Nacional, é preciso contar com os vários setores da nacionalidade brasileira.
Então eu quero, digamos assim, como articulador político do governo, eu quero fazer esse apelo. Vocês sabem que ao longo do tempo nós tivemos sucesso na articulação política, mas hoje, quando se inaugura, exatamente, o segundo semestre, agrava-se uma possível crise. E nós precisamos evitar isso. Isso em nome do Brasil, em nome do empresariado brasileiro, em nome dos trabalhadores. 
É preciso que alguém possa, tenha a capacidade de reunificar a todos, de reunir a todos, e fazer este apelo. E eu estou tomando esta liberdade de fazer este pedido, porque, caso contrário, nós podemos entrar numa crise desagradável para o país.
Eu sei que os brasileiros não contam com isso. Os brasileiros querem que o Brasil continue na senda do desenvolvimento, na trilha do desenvolvimento, e por isso que, mais uma vez, eu reitero: é preciso pensar no país. Acima dos partidos, acima do governo e acima de toda e qualquer instituição está o país. Se o país for bem, o povo irá bem."









Nenhum comentário :

Postar um comentário

Seu comentário será exibido após análise do editor.