sábado, 16 de maio de 2020

O sofisma da tesoura


Da esquerda para a (falsa) direita:
Celso Amorim, Lula, FHC e José Gregori.
Tomei conhecimento ontem de um artigo publicado na Folha de São Paulo em 8 de maio. A peça, como invariavelmente fazem as matérias e os artigos da Folha, critica o governo Bolsonaro e implora pela volta dos modelos anteriores.

Até aí, nenhuma novidade. Mas as entrelinhas e os detalhes são reveladores. Um antigo provérbio alemão já dizia: "Der Teufel steckt im Detail", que por aqui conhecemos como "o diabo mora nos detalhes".

O artigo é assinado por nomes que aparentemente pertencem a um diversificado espectro ideológico e político. Aparentemente. Para leitores desatentos e menos informados, a percepção inicial é de que há uma unanimidade em todas as áreas, condenando os modelos adotados pelo governo atual.

O que uniria em uma mesma produção textual política nomes como, entre outros, Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes Ferreira, Celso Amorim e José Serra? O petista Amorim foi ministro de Lula e Dilma. Em 2017, durante a visita que FHC fez ao ex-presidente Lula, quando a ex-primeira-dama Marisa Letícia estava internada, Celso Amorim defendeu às vésperas de uma eleição em que Bolsonaro já ameaçava surpreender, que os dois construíssem uma solução em conjunto para o Brasil. FHC, José Serra e Aloysio Nunes, entre outros, foram proeminentes ativistas contra o governo militar. Informes da inteligência militar da época caracterizam FHC como “elemento extremista”. Nunes e Serra chegaram a integrar grupos guerrilheiros, e como outros camaradas, foram presos e exilados.

A simbiose entre PT e PSDB, sempre dissimulada por uma falsa polarização, remonta às respectivas origens. A encenação que ambos protagonizam é conhecida por "estratégia das tesouras". O artigo "Sergio Moro e a estratégia das tesouras" já abordou essa questão.

Feito este preâmbulo, decodificar o artigo escrito a tantas mãos torna-se tarefa banal.

A resenha pretende convencer os incautos leitores de que a política externa brasileira do governo Bolsonaro promove "sistemática violação da Constituição". Não há problema algum em expressar opinião. O problema é elaborar uma argumentação baseada em ilações em vez de fatos. O nome disso é sofisma, que os signatários pretenderam elevar ao estado da arte, com erudição e ortografia sofisticadas, para parecer mais verossímil.

Iniciam citando a Constituição, na intenção de imprimir lastro ao discurso, lembrando que o Brasil “rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I- independência nacional; II- prevalência dos direitos humanos; III- autodeterminação dos povos; IV- não intervenção; V- igualdade entre os Estados; VI- defesa da paz; VII- solução pacífica dos conflitos; VIII- repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX- cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X- concessão de asilo político. Parágrafo único: A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.”

A confiança na ingenuidade dos leitores não lhes permitiu perceber que se basearam nesse trecho da Carta Magna para elencar seus motivos e, ironicamente, acabaram demonstrando o exato oposto do que pretendiam. Os exemplos listados na sequência revelam precisamente o alinhamento da política externa do governo aos princípios constitucionais evocados pelos autores.

Com muitos rodeios, o malabarismo semântico da nova agremiação anti-Bolsonaro, simulando ares de ferrenho constitucionalismo, ao fim e ao cabo descortina apenas uma principal questão: o inconformismo com a aproximação do Brasil aos Estados Unidos e, em consequência, o isolamento da Venezuela, que leva à derrocada do projeto bolivariano do Foro de São Paulo para a América Latina, que tinha o Brasil como locomotiva, conduzida pelos maquinistas da ilha caribenha de Cuba.

Na esteira desse novo posicionamento do Brasil, que os doutos e iluminados gurus da "resistência" sem vergonha acusam de "contrariar esses princípios constitucionais" (?), o texto igualmente sugere, vejam só, ser ilegal o apoio a Israel. A esquerda brasileira sempre foi aliada de grupos terroristas palestinos, assim como de latinos como as FARC. De FHC a Dilma, a diretriz da política externa era o fortalecimento desses grupos e dos regimes autoritários do Oriente Médio, e a condenação sistemática do Estado de Israel, o mais democrático e livre da região. Mas isso jamais foi considerado inconstitucional.

Os devaneios pseudo-constitucionalistas pegam embalo e se espraiam no que chamaram de "negação aos povos autóctones dos direitos que lhes são garantidos na Constituição, o desapreço por questões como a discriminação por motivo de raça e de gênero". Traduzindo: não admitem que os povos indígenas brasileiros tenham que se submeter à mesma Constituição que bradam defender. O conceito de "nações indígenas" independentes, autônomas e livres para se subjugarem a ONGs e governos estrangeiros, e não mais integrantes da "nação brasileira" e sujeitas ao Estado brasileiro, também perdeu sua inviolabilidade, o que, para a turminha, é inadmissível, e mesmo "inconstitucional". Para sustentar mais esse desvario, lançam mão até de falácias como "discriminação por motivo de raça e de gênero".

E não para por aí. Os espíritos de George Soros e Greta Thunberg inspiraram os sensitivos escritores a acusar que "o Brasil aparece agora como ameaça a si mesmo e aos demais na destruição da Amazônia e no agravamento do aquecimento global." Só faltou escrever "vocês roubaram os nossos sonhos!". E como o argumento agora é a devastação do habitat das girafas amazônicas, não poderiam deixar de lamentar que, com Bolsonaro, "antagonizamos gratuitamente parceiros relevantes em todos os domínios, como a França"... Sim, coitadinho do socialista Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron. Mais uma vítima da inadmissível (e inconstitucional) guinada à direita da sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro.

O vírus chinês, obviamente, não poderia ficar de fora da verborragia da intelectualidade canhota: "ataques inexplicáveis à China e à Organização Mundial da Saúde, somado à insensibilidade às vidas humanas demonstrados pelo presidente da República...". A falta de pudores é estarrecedora, parafraseando aquela Dilma. Inexplicáveis mesmo são as omissões da China sobre os dados reais da pandemia, condenadas por todo o mundo civilizado, e a conivência da OMS, errática, atrasada e ineficaz para conduzir o mundo, como quis se impor, para a saída do problema.

Por fim, uma súplica, já que os argumentos por si só não têm qualquer alcance: "é preciso que o Judiciário e o Congresso Nacional cumpram o papel que lhes cabe no controle das ações diplomáticas." Lógico, independência dos poderes, prevista na Constituição, e impossibilidade constitucional de interferência, não vêm ao caso. O negócio é parar Bolsonaro!

E mais: "a política externa precisa contar com amplo respaldo na opinião pública", o que está correto, dados os resultados das urnas que referendaram as propostas de Bolsonaro que já apontavam nessa direção. Mas, no mesmo parágrafo, essa mesma opinião pública é chamada de "uma minoria obscurantista e reacionária." Termos, aliás, repetidos à exaustão na mídia que se alinha a essa "resistência". O ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, já dizia que "uma mentira repetida mil vezes se transforma em uma verdade". Sempre que possível serão repetidos insultos como obscurantista, reacionário, machista, homofóbico, fascista, ditador, essas coisas. Esse primor de manifesto não poderia fugir à regra.

FHC desceu do panteão reservado a ex-presidentes e se reuniu à mais rasteira militância para aumentar o coro da difamação de uma esquerda raivosa e inconformada, que "faz o diabo", como dizia aquela Dilma, para tomar o poder. Às favas a Constituição e a democracia. Mentira e falácia são as armas dessa guerra. A aproximação de Lula a Doria, depois de FHC a Lula, e agora esse artigo, assinado em conjunto com alguns expoentes da esquerda visceral e da enrustida, é só mais um episódio da estratégia das tesouras, cada vez mais explícita e impaciente.

Pelo menos um alívio: o fato de essa pérola só ter aparecido por aqui uma semana depois da publicação, significa que sua repercussão foi pífia. Como costumam ser as de obras com pouca ou nenhuma base na verdade.











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